Me ajuda a te ajudar

A importância de aprender a pedir ajuda no ambiente de trabalho
Por Bárbara Lins

 

A sala deles tem janelões de vidro, de onde podemos ver tudo que acontece lá dentro. São bancadas com mil e um equipamentos. Fios e peças eletrônicas ficam expostos aqui e acolá.

É de lá que saem muitas das soluções de tecnologia usadas na empresa. E eu queria uma delas. Na verdade, algumas. Eu era estagiária e minha diretora à época autorizou meu plano de ir pra África do Sul, fazer um blog sobre a Copa do Mundo de Futebol para a emissora. Como não tinha expertise naquilo, queria muito a ajuda e conselhos daqueles profissionais.

Entretanto, a ideia de ir lá me causava desconforto. O sentimento era que se fosse lá pedir algo, estaria incomodando ou acabaria atrapalhando todo o andamento de algum projeto importante da diretoria. Deus me livre isso acontecer.

Dificuldade em pedir ajuda

Esse sentimento que tive em 2010, na minha primeira experiência profissional, é clássico. Acontece todos os dias em diferentes empresas no mundo todo. Para a maioria de nós, em algum momento da carreira, pedir algo pode gerar um grande desconforto. Pense na última vez que você precisou pedir algo a alguém no trabalho, como trocar de escala, adiantar um serviço ou segurar a onda enquanto você resolvia um problema pessoal.

Algumas vezes, nós acabando travando. Seja por achar que estaremos incomodando, nos rebaixando, impondo algo ou por medo de receber um não – o que nos levaria a cena de embaraço ou humilhação.

Só que é justamente esse pensamento de “não querer atrapalhar” que tem atrapalhado a entrega de produtos melhores, o desenvolvimento de uma cultura de inovação e a criação de um ambiente de trabalho colaborativo.

As pessoas estão dispostas a ajudar

É claro que existe gente de má vontade, preguiçosa ou interesseira no mundo, mas estudos mostram que a maioria das pessoas está dispostas a colaborar. Um deles é de Stanford. Em 2008, um professor da School of Bussiness realizou vários experimentos para testar essa hipótese.

Em um dos experimentos, os participantes foram instruídos a pedir favores às pessoas na Universidade. Mas antes de começarem, tinham que estimar quantas pessoas eles achavam que atenderiam às suas solicitações.

Os participantes pediram emprestados telefones celulares de estranhos para fazer ligações, solicitaram que as pessoas ajudassem eles a preencherem questionários ou pediram aos estudantes para ajudá-los a encontrar o ginásio do campus – um favor que exigia que os alunos colaboradores andassem por pelo menos dois quarteirões na direção da academia.

Em todos os casos, os estudantes ficaram surpresos. O número de pessoas que aceitaram era sempre bem acima do que eles tinham estimado. Para ser exata, as pessoas subestimaram em até 50% a probabilidade de que outros concordariam com um pedido direto de ajuda.

A arte de saber pedir

A pesquisa ainda mostrou que os estudantes sentiram muita dificuldade em pedir ajuda.Para facilitar a vida de quem também não fica totalmente à vontade nessas horas, olha essas dicas da escritora Alice Boyes, Ph.D. em psicologia comportamental:

  • Demonstre que você tentou antes por conta própria;
  • Diga que você vai seguir todas as recomendações e orientações da pessoa. Se for o caso, fale que você já seguiu os conselhos dela antes e que ela foi útil;
  • Preste atenção no momento certo para pedir ajudar. Não pode ser na hora em que a pessoa estiver mega atarefada;
  • Seja o mais claro possível sobre o que você quer;
  • Deixe a pessoa confortável para dizer não.

Foram dicas assim que me ajudaram com aquele caso em 2010. Mesmo com vergonha, entrei e expliquei meu problema. Eles me ouviram atentamente. Em menos de dez minutos pareciam mágicos. Só que no lugar de coelhos da cartola, tiravam equipamentos de caixas e estantes.

Com entusiasmo, me explicaram cada um deles. Estavam animados com o projeto e queriam mesmo alguém para testar aquelas novas aquisições.

Depois daquele dia, minha relação com aqueles profissionais só melhorou. Desenvolvemos parceiras e colaboramos uns com os outros em projetos e testes. Isso passou a valer para outros setores na empresa.

Hoje é claro para mim que pedir é um ato de confiança, de compartilhamento. Um ambiente aberto, onde as pessoas não têm medo de pedir e expor suas necessidades e ideias, gera confiança, algo essencial para empresas que buscam inovação.

E é importante que isso seja inserido na cultura de todos setores de uma empresa. Eu tenho tentado fazer minha parte na minha.

Um dia um colega perguntou:

– Bárbara, como é que você consegue ter acesso a esses equipamentos? Como faz? Tem que falar com o chefe? Tem que ser amigo da galera lá?

No que eu respondi com a mais pura verdade:

– Não, querido. É só pedir.

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