O futuro do trabalho: as tendências das novas relações entre empresa e empregado

Nos últimos meses, as discussões a respeito da Reforma da Previdência despertaram a atenção de muita gente para quanto tempo será preciso trabalhar até a aposentadoria. Enquanto fazemos contas, é possível ter uma certeza: o futuro das relações de trabalho será muito diferente do que vivenciamos hoje.

Por Gustavo Andrade, via Inteligência Rock Content

 

Diversos estudos e até mesmo ações já praticadas ao redor do mundo indicam novas tendências na relação entre empresa e empregado. A adoção do trabalho remoto como padrão, a diminuição do número de dias trabalhados e o compartilhamento de cargos são alguns dos formatos que já são realidade para muitos trabalhadores.

Esse novo cenário é consequência tanto da demanda de uma nova geração, que enxerga sua relação com o trabalho de forma diferente da dos seus pais, quanto um movimento de empresas preocupadas com que o aumento de produtividade esteja alinhado à oferta de bem-estar.

Entenda, a seguir, como são configurados cada um desses novos formatos de trabalho e quais foram os resultados alcançados por empresas que já praticam essas ações.

 

Diminuição dos dias trabalhados

Em momentos de crise, não é raro que montadoras de veículos adotem diminuição da carga horária de trabalho nas fábricas. Afinal, há diminuição de demanda e os custos em manter funcionários e máquinas trabalhando em período integral não se justifica. Porém, a redução do número de dias trabalhados já não se restringe a casos isolados como esses.

Na agência de marketing australiana Versa, ninguém trabalha às quartas-feiras. O objetivo é ser mais eficiente. Os funcionários da empresa fazem um dia de duração padrão às segundas e terças-feiras e repetem a carga horário na quinta e na sexta-feira. Não há reuniões agendadas para as quartas-feiras, mas se um cliente tiver uma demanda urgente, os funcionários se organizarão para atendê-lo.

Ainda que haja um dia a menos trabalhado na semana, os salários são os mesmos do período em que todos trabalhavam 5 dias. Desde que houve a instituição da folga às quartas-feiras, em julho de 2018, a receita da empresa australiana aumentou em 46%, e os lucros quase triplicaram, conforme destacou seu CEO e fundador Kath Blackham em entrevista à BBC.

O caso da Versa não é isolado. Ainda na Oceania, mais precisamente na Nova Zelândia, a administradora de fundos, testamentos e patrimônios Perpetual Guardian constatou que a diminuição da semana de trabalho para 4 dias resultou em ganho de produtividade entre seus 240 empregados.

 

Depois da redução de 40 horas semanais para 32, os resultados dessa ação foram mensurados por pesquisadores da Universidade de Tecnologia de Auckland e os funcionários apontaram melhora de 24% em seu equilíbrio vida/trabalho, com ganho de disposição no retorno ao trabalho depois do dia adicional de folga.

Paralelamente à melhora na qualidade de vida, há a constatação de que os funcionários passam a diminuir distrações e têm reuniões com mais foco. Apesar da diminuição da carga horária, não há perda de produtividade e, assim, os salários são mantidos. “Se você produzir em menos tempo, que motivo eu teria para reduzir seu pagamento?”, ponderou o fundador da Perpetual Guardian, Andrew Barnes, em entrevista ao New York Times.

Trabalho remoto como padrão

O home office, ou teletrabalho, está longe de ser uma novidade no mundo corporativo. A forma como ele será utilizado no futuro é que tende a mudar drasticamente. Um estudo da Universidade de Stanford, realizado pelo professor de economia Nicholas Bloom, defende que trabalhar em casa deveria ser o modelo padrão.

 

Essa conclusão foi alcançada depois de um teste controlado com funcionários da agência de viagens chinesa Ctrip. O objetivo era analisar os efeitos do trabalho remoto, e os resultados indicaram que os profissionais que trabalhavam em casa aumentaram a produtividade em 13%. Mais satisfeitos, eles faziam menos pausas e ficavam menos doentes.

Além do aumento de produtividade, outra vantagem percebida pela empresa foi a diminuição no custo dos empregados. Aqueles que ficavam em casa custavam metade dos que trabalhavam em escritórios.

Os benefícios do trabalho, como aponta o professor de Stanford, vão além da relação entre empresa e empregado. Há ainda pelo menos dois impactos sociais da permanência das pessoas por mais tempo em suas residências: a diminuição do trânsito e também da poluição.

No Brasil, o Global Evolving Workforce indica que 54% dos trabalhadores se consideram mais produtivos ao trabalhar em casa, enquanto somente 14% discordam que esse formato de trabalho aumenta a produtividade.

 

A pesquisa Global Evolving Workforce foi patrocinada pelas empresas Dell e Intel e entrevistou 5 mil profissionais de pequenas, médias e grandes empresas de 12 países. Entre os brasileiros, 49% sentem menos estresse, 45% dirigem menos, 33% dormem mais e 52% têm mais tempo para a família.

Contudo, é válido destacar que há contrapartidas do trabalho em casa. Um estudo do banco britânico Aldermore descobriu que 39% das pessoas que trabalham em casa se sentiam solitárias. Esse sentimento pode trazer consequências negativas para a saúde, como desenvolvimento de depressão.

Compartilhamento de cargos

O compartilhamento de cargos é uma tendência de futuro das relações de trabalho chegou ao Brasil neste ano. No conceito de job sharing, duas pessoas dividem entre si a carga horária do mesmo cargo, em dias ou turnos consecutivos. Assim, há, por exemplo, profissionais que trabalham de segunda-feira a quarta-feira, enquanto seus colegas ocupam o mesmo posto de quarta-feira a sexta. A dupla combina um sistema de organização e comunicação que se repete semanalmente.

Para o funcionamento ideal do job sharing, é comum que as duas pessoas tenham uma conta de email conjunta, uma só mesa e o mesmo número de telefone fixo. Além disso, é preciso um firme compromisso de respeitar as decisões do colega e nunca enviar ordens contraditórias aos subordinados.

Por consequência da diminuição da carga horária, a remuneração é proporcionalmente reduzida. No entanto, pessoas que já trabalham nesse formato apontam que a possibilidade de ter mais tempo livre aumenta significativamente a qualidade de vida.

Na Europa e nos Estados Unidos, ‘job sharing’ já é um conceito difundido. Segundo a Robert Half, em 2014, 48% das empresas do Reino Unido já ofereciam o formato de compartilhamento de cargos, com diminuição da carga horária. No Brasil, enfim, essa modalidade começa a ser utilizada. Neste ano, a Unilever decidiu testar o novo jeito de trabalhar com semana de três dias e divisão de responsabilidades e demandas do serviço. O teste é aplicado na área de recursos humanos.

As diretoras Carolina Mazziero e Liana Feracotta dividem o mesmo cargo na multinacional no setor de gestão de pessoas. Enquanto Carolina trabalha às segundas, terças e quartas, Liana fica com as terças, quartas e quintas. Há flexibilidade de horários e folgas nas sextas-feiras.

O Reino Unido é onde essa modalidade tem sido mais difundida, com 48% das organizações ofertando vagas compartilhadas. Por lá, a administração pública estimula que funcionários compartilhem seus cargos e oferece um manual para que sejam feitas candidaturas conjuntas por vagas. Nos processos seletivos, há uma entrevista simultânea com os dois candidatos.

Profissionais de RH indicam que a oferta de flexibilidade identificada tanto no job sharing quanto nos outros formatos citados anteriormente pode ser o diferencial para atrair mais talentos e aumentar as taxas de retenção.

Quer conhecer outras tendências do mercado de trabalho? Aproveite para entender a relação entre as habilidades do futuro e a automação do trabalho.

 

 

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